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Sonolência excessiva – pode ser narcolepsia

 

river sleeping

Pacientes com narcolepsia foram descritos desde o século XVIII, mas foi o neuropsiquiatra francês Edouard Gélinau quem primeiro caracterizou e denominou a doença. Gélinau publicou um artigo em 1880 na Gazette des Hôpitaux de Paris no qual mencionou uma síndrome caracterizada por uma urgência súbita e incontrolável para dormir. Ele relatou os casos de dois pacientes. Um deles era um comerciante de vinhos de 38 anos com uma história de ataques repetidos de sono que tinham iniciado dois anos antes, após um relacionamento amoroso infeliz. Entre estes ataques, ele também relatou episódios no qual perdia o controle das suas pernas, principalmente após uma gargalhada, após qualquer emoção agradável ou quando segurava nas mãos um bom trunfo de cartas. No ano seguinte, Gelineau publicou uma monografia com 14 casos de narcolepsia. Ele acreditou inicialmente que tratava-se de um tipo novo de neurose.

Foi somente no início do século XX que a narcolepsia despertou interesse e debate entre os neurologistas, se era uma doença autonôma ou sintomática, após um surto de encefalite letárgica na década de 20. Em 1957, Yoss e Daily descreveram a tétrade completa de sintomas:

  • Sonolência excessiva diurna: ataques de sono incontroláveis, em qualquer lugar ou situação, mesmo em situações bizarras.
  • Cataplexia: é a perda de tônus muscular causada por emoções, geralmente deflagrada pelo riso. O mais comum é a perda de tônus na cabeça, pescoço e nos braços.  A cataplexia pode acometer os membros inferiores e por este motivo causar queda ao solo, geralmente sem perda de consciência.
  • Paralisia do sono: manifesta-se pela consciência de estar desperto junto com a inabilidade para mover-se por alguns minutos. Geralmente ocorre ao despertar (como sintoma isolado é comum em situações de privação de sono).
  • Alucinações hipnagógicas: são alucinações que ocorrem na transição sono/vigília, sobretudo visuais e auditivas, que parecem alucinações oníricas. As alucinações visuais mais comuns se apresentam como percepção de formas estranhas, ora esféricas, ora em outros formatos geométricos. Podem ser tanto monocromáticas como intensamente coloridas.

Estes sintomas representam intrusões do sono REM (ou sono associado aos sonhos) na vigília. Ao disso, por conta desta dersorganização sono/ vigília que se observa na doença, o sono noturno dos narcolépticos é fragmentado e de má qualidade, o que pode caracterizar um quinto sintoma ou “pentade” da narcolepsia.

Após a descoberta do sono REM por Kleitman e Aserisnky na década de 50, a narcolepsia finalmente pôde ser estudada através da polissonografia. O desenvolvimento de outros testes diagnósticos, e a descoberta de danos aos neurônios secretores de hipocretina na região do hipotálamo têm trazido nova compreensão dos mecanismos envolvidos na narcolepsia. A hipocretina é um neuropeptídeo que regula o sono-vigília e seus níveis são baixos em pacientes com a doença.

A narcolepsia costuma iniciar por volta da segunda década de vida, embora possa começar na infância ou um pouco mais tarde, e afeta 1 em cada 2000 pessoas no Reino Unido (a prevalência é desconhecida no Brasil). A estatística é similar nos estados Unidos. O retardo frequente por anos do diagnóstico e a sonolência excessiva acentuada, mesmo com tratamento, causam um grande prejuízo na qualidade de vida para os pacientes em diversos aspectos: desde o risco aumentado de acidentes até dificuldades na vida pessoal e atividades profissionais e alta prevalência de sintomas depressivos.

O diagnóstico é clínico, e requer o suporte através de polissonografia, para descartar outras causas de sonolência diurna. Um teste adicional, chamado de “teste de latências múltiplas do sono”, é realizado no dia seguinte após a polissonografia, para flagrar episódios de sonolência intensa associados a períodos precoces de sono REM no traçado eletroencefalográfico.

O tratamento da narcolepsia, uma vez definido o diagnóstico, requer o uso de estimulantes (modafinil e anfetaminas) para combater a sonolência diurna e de antidepressivos, estes últimos para tratar sintomas de cataplexia, paralisia do sono e alucinações. Medidas comportamentais e de apoio aos pacientes são essenciais.

Virna Teixeira

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