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Quando a memória falha

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A memória é o processo de adquirir, conversar e evocar recordações. Só conseguimos lembrar aquilo que gravamos antes. O passado é o acervo de dados que permite projetar o futuro, e mesmo formar a nossa personalidade. A história de um povo provém de suas memórias.

A emoções e os estados de ânimo regulam as informações que retemos e evocamos. O processo de formação de memória é complexo, requer a interação de áreas diversas do sistema nervoso central e diferentes neurotransmissores e passa por várias etapas. Há tipos distintos de memória. Uma delas, fugaz, que usamos no dia a dia, é a “memória de trabalho”, que ajuda a manter a informação em segundos, ou poucos minutos, que está sendo processada em um dado momento. Esta expressão provém da área da computação. O que é mais relevante será filtrado, e posteriormente revisto.

Há memórias de curta duração, de longa duração e memórias remotas. Na verdade, lembramos mais do que esquecemos, dada a imensa quantidade de informações a que somos submetidos. Além disso, usamos muitas vezes mecanismos de repressão para esquecer eventos desagradáveis, o que tem uma função protetora. As memórias são armazenadas através de modificações nas redes neurais, um processo chamado plasticidade neutral. As memórias que resistem mais ao tempo e que evocamos com as mais facilidade são as que têm mais importância na nossa história. Todos temos esquecimentos temporários, brancos ocasionais quando estamos distraídos e bloqueios em evocar alguma lembrança.

Muitas pessoas se preocupam quando passam a apresentar esquecimentos com mais frequência. Atualmente as queixas de esquecimento, mesmo em pacientes jovens, têm sido cada vez mais comuns no consultório do neurologista. O estresse cotidiano, a privação de sono, o excesso de atividades, o abuso de substâncias como o álcool, e quadros depressivos e ansiosos são as causas mais comuns por trás da queixa. Uma pessoa sob uma situação de estresse (uma prova, por exemplo) pode de repente ter um “branco”. Sabe-se que isso deve-se a um pulso de cortisol que é liberado num momento de estresse.

Pacientes com idade mais avançada temem sempre o início de um quadro demencial quando percebem esquecimentos cotiadianos, sobretudo quando há história familiar associada. Embora a doença de Alzheimer, a causa de demência mais comum, inicie com perda de memória, é preciso saber que a demência afeta também outras esferas da cognição, como por exemplo a orientação temporal e espacial, ou a linguagem. Um simples “esquecimento” não caracteriza uma demência. Muitas vezes há um distúrbio depressivo associado, ou a causa é um transtorno cognitivo leve.

A persistência destes esquecimentos e brancos têm causas variadas e necessitam de investigação e orientação. Algumas causas de distúrbios de memória são perfeitamente tratáveis e reversíveis. Vou enumerar aqui algumas causas delas:

  • Depressão, ansiedade e outros distúrbios mentais podem causar esquecimento, déficit de atenção e outras dificuldades que dificultam as atividades da vida diária. Além disso, também podem afetar o sono (vide adiante).
  • Distúrbios do sono: uma má higiene do sono, como permanecer voluntariamente acordado até tarde e ter que levantar cedo no dia seguinte tem impacto direto sobre a memória. Mesmo uma única noite com privação de sono afeta a concentração no dia seguinte. A insônia é outra causa comum. Lembro que insônia não é doença, é um sintoma, geralmente ligado a distúrbios depressivos e ansiosos. Pacientes cronicamente insones queixam-se muito de esquecimento, pois a redução de horas de sono afeta a consolidação da memória. A síndrome da apnéia do sono causa noites mal dormidas com pausas respiratórias e microdespertares frequentes, e assim os indivíduos afetados apresentam sonolência excessiva e prejuízo da atenção no dia seguinte, também com impacto sobre a memória. Outras causas menos comuns ligadas a distúrbios do sono também podem ocorrer.
  • Medicações: algumas medicações podem causar confusão, sonolência, confusão ou até mesmo distúrbio de memória, sobretudo medicações que atuam no sistema nervoso central, usadas em diversos contextos clínicos, como por exemplo, alguns anticonvulsivantes. As medicações mais relacionadas a distúrbios de memória são os tranquilizantes da classe dos benzodiazepínicos. Uma vez identificada e corrigida esta causa, há melhora do sintoma.                  
  • Alcoolismo: o álcool pode prejudicar as funções mentais. Ele age como um depressor do sistema nervoso, mas afeta mais algumas áreas que outras, sobretudo o hipocampo, área importante no circuito da memória. O álcool causa dano às células do hipocampo, com prejuízo na retenção de memória, sobretudo de memória recente. Os blackouts ou “apagamentos” resultam de intoxicação alcóolica. O álcool pode ainda afetar várias outros tipos de memória, como a memória explícita e a semântica. Seu uso continuado pode causar atrofia do hipocampo e afetar outras áreas cerebrais, inclusive corticais.
  • Deficiência de vitamina B12 é outra causa potencialmente tratável de distúrbio de memória. A vitamina B12 participa do metabolismo de neurônios e células sanguíneas. Uma simples dosagem sérica de B12 é um bom screening, e o tratamento se dá através de reposição.
  • Hipotiroidismo: uma tiróide hipoativa lentifica o metabolismo celular e pode causar esquecimento, humor deprimido e outros sintomas. O quadro também é corrigido através da reposição do hormônio.

Substâncias ilícitas também podem afetar a memória, como é o caso do MDMA (ecstasy). Mesmo o uso eventual, recreativo, da substância pode causar leves déficits de memória. Usuários crônicos estão expostos a danos mais severos.

Há outras causas de distúrbios de memória, como um “apagão” que se manifesta imediatamente após um trauma de crânio (mesmo um trauma banal), ou causas ligadas a problemas neurológicos específicos, que comumente se acompanharão de outros sintomas e queixas além do esquecimento.

Se você está preocupado(a) com seu esquecimento, o melhor a fazer é marcar uma consulta, onde estas causas serão rastreadas, e alguns testes simples podem ser realizados na consulta. Exames adicionais poderão ser solicitados de acordo com o caso, tanto de sangue como de imagem, ou mesmo uma avaliação neuropsicológica.

No caso de pacientes idosos com perda crescente de memória, é importante ficar atento e não tentar esconder o problema. Tanto o paciente como a família podem se valer desse mecanismo de defesa e na verdade, mesmo um quadro inicial de demência pode se beneficiar de um tratamento específico. Não é incomum ver situações onde o paciente já apresenta demência há alguns anos, e a família só procura quando a doença já está em uma fase moderada ou severa.

Virna Teixeira

 

Virna Teixeira é neurologista e especialista em distúrbios do sono e trabalha no Centro de Neuropsiquiatria.