Ensaio sobre o coqueiro: o que os coqueiros têm a ensinar sobre viver bem

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Como em todo início de ano, está na hora de começar a preparar a lista de objetivos para os meses vindouros. Para aqueles que vão para as praias, principalmente para as praias do Nordeste, sugiro que atente por um minutinho para os coqueiros ao redor e pense um pouco na sua vida. Seria interessante incluir entre esses objetivos que você fosse um pouco mais parecido com um desses coqueiros. Neste ponto, você deve estar imaginando que eu surtei, pois não entendeu nada do que falei até o momento sobre ser como um coqueiro… Como assim, ser parecido com ele? E, supondo que fosse, o que o coqueiro tem a ver com viver bem, com o bem-estar do título? A resposta é: tem tudo a ver. Ele é uma metáfora muito bem acabada de como podemos viver bem a vida.

Vejamos… A psiquiatria foi uma das áreas da medicina que mais avançou nas últimas décadas, contudo, esse avanço não se traduziu em maiores níveis de bem-estar e felicidade para maior parte da população. Por causa disso, alguns pesquisadores passaram a se questionar não mais acerca do que tornava as pessoas tristes, melancólicas, infelizes ou deprimidas. Em vez disso, começaram a buscar em suas pesquisas quais fatores fazem com que uma pessoa tenha bem-estar, sinta-se bem, seja feliz. Um desses pesquisadores é Robert Cloninger, professor da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Ao estudar os aspectos que fazem com que alguns indivíduos sintam-se bem melhor que os demais, Cloninger percebeu que três princípios de vida contribuíam consistentemente para o bem-estar: 1) Contribuir com o coletivo (cooperativeness) e trabalhar não apenas para nosso próprio bem, mas também em serviço dos outros (desfrutar dessa cooperatividade, sendo respeitoso e gentil com os demais); 2) Exercer a capacidade de “deixar passar” (letting go) ou não se apegar ou preocupar-se com qualquer coisa (não lutar ou preocupar com tudo, ser empático e reflexivo nas situações) e, por fim, 3) Aumentar o nível de awareness ou autoconhecimento (ser feliz ao se adaptar e aprender constantemente, sendo autêntico e humilde).

Agora, de volta ao nosso prosaico coqueiro. Esse membro da família Aracaceae, que também contém as palmeiras, pode ser geralmente encontrado em regiões litorâneas no Nordeste do país. Apesar do terreno arenoso e dos ventos constantes e frequentemente fortes dessas regiões, dificilmente vemos coqueiros caídos após uma tempestade ou mesmo depois de uma ressaca. Eles são extremamente resistentes a intempéries. Por que isso ocorre? E, ao contrário disso, por que quando cai uma chuva em São Paulo é tão comum vermos outras árvores caídas, mesmo em terrenos mais firmes que as areias da praia? No que elas diferem do coqueiro? Para começar, o coqueiro tem uma base (raiz) que, embora não seja tão profunda ou vigorosa, é bastante ampla. São centenas e até milhares de radículas que formam uma enorme rede que se estende ao redor da planta por uma distância correspondente à sua altura. Essa trama continua crescendo por toda vida da árvore permitindo que, mesmo em condições adversas ele mantenha o equilíbrio. No nosso caso, aprendemos que ao estabelecer relacionamentos consistentes e mútuos com as pessoas ao nosso redor, nós também nos tornamos mais estáveis nos momentos difíceis de nossas vidas.

Outro ponto de convergência é o tronco do Cocos nucifera, nome científico do coqueiro-da-bahia. Este se destaca pois alia resistência e flexibilidade numa combinação de características que possibilita um homem escalar até o seu topo sem que ele se dobre com o peso do homem, mas também permite que, em caso de vendavais, o tronco balance e se dobre sem quebrar. Esse outro ensinamento adquirimos ao longo do tempo. Ao aumentarmos nosso conhecimento de si, também devemos aprender a perceber quais os valores que são verdadeiramente caros para nós e quais aqueles que podem ser flexibilizados. Devemos ser firmes nos valores mais importantes de nossa vida (família, honra, educação, honestidade entre outros) e passiveis de flexibilizar aqueles que não fazem tanta diferença em nossas vidas. Esse jogo de cintura ajuda a levar a vida de modo mais saudável.

Por fim, o coqueiro também nos ensina a “deixar passar” (letting go). Alguns de nós já fomos numa praia depois de uma tormenta de verão. Quando isso ocorre, a praia fica frequentemente repleta de cocos caídos e alguns coqueiros estão inclusive mais “pelados” devido às palhas e folhas que deixaram cair. Sim, tal qual no ditado popular “vão-se os anéis, ficam-se os dedos”, as vezes é melhor soltar alguns cocos pelo caminho e ficar de pé do que nos agarrar a eles com todas as forças e cairmos juntos. Outros cocos brotarão e outras folhas ocuparão o lugar daquelas arrancadas. A vida sempre se renova.

Temos que admirar ainda uma última característica (esta última, devo admitir, chega a me provoca algo como uma “inveja” saudável). Os coqueiros geralmente estão próximos à praia, olhando para o mar e ao sabor do vento. Aproveitar a vista é algo que devemos fazer sempre que possível.

Agora que falamos de nosso personagem e explicamos por que ele pode ser referência e inspiração para uma vida melhor, sugiro que, nas próximas viagens, você tome uma água de coco na sombra de um coqueiro. Quem sabe você não se anima para mudar alguma(s) coisa(s) em sua vida?

Bruno Mendonça

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