Quando a memória falha

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A memória é o processo de adquirir, conversar e evocar recordações. Só conseguimos lembrar aquilo que gravamos antes. O passado é o acervo de dados que permite projetar o futuro, e mesmo formar a nossa personalidade. A história de um povo provém de suas memórias.

A emoções e os estados de ânimo regulam as informações que retemos e evocamos. O processo de formação de memória é complexo, requer a interação de áreas diversas do sistema nervoso central e diferentes neurotransmissores e passa por várias etapas. Há tipos distintos de memória. Uma delas, fugaz, que usamos no dia a dia, é a “memória de trabalho”, que ajuda a manter a informação em segundos, ou poucos minutos, que está sendo processada em um dado momento. Esta expressão provém da área da computação. O que é mais relevante será filtrado, e posteriormente revisto.

Há memórias de curta duração, de longa duração e memórias remotas. Na verdade, lembramos mais do que esquecemos, dada a imensa quantidade de informações a que somos submetidos. Além disso, usamos muitas vezes mecanismos de repressão para esquecer eventos desagradáveis, o que tem uma função protetora. As memórias são armazenadas através de modificações nas redes neurais, um processo chamado plasticidade neutral. As memórias que resistem mais ao tempo e que evocamos com as mais facilidade são as que têm mais importância na nossa história. Todos temos esquecimentos temporários, brancos ocasionais quando estamos distraídos e bloqueios em evocar alguma lembrança.

Muitas pessoas se preocupam quando passam a apresentar esquecimentos com mais frequência. Atualmente as queixas de esquecimento, mesmo em pacientes jovens, têm sido cada vez mais comuns no consultório do neurologista. O estresse cotidiano, a privação de sono, o excesso de atividades, o abuso de substâncias como o álcool, e quadros depressivos e ansiosos são as causas mais comuns por trás da queixa. Uma pessoa sob uma situação de estresse (uma prova, por exemplo) pode de repente ter um “branco”. Sabe-se que isso deve-se a um pulso de cortisol que é liberado num momento de estresse.

Pacientes com idade mais avançada temem sempre o início de um quadro demencial quando percebem esquecimentos cotiadianos, sobretudo quando há história familiar associada. Embora a doença de Alzheimer, a causa de demência mais comum, inicie com perda de memória, é preciso saber que a demência afeta também outras esferas da cognição, como por exemplo a orientação temporal e espacial, ou a linguagem. Um simples “esquecimento” não caracteriza uma demência. Muitas vezes há um distúrbio depressivo associado, ou a causa é um transtorno cognitivo leve.

A persistência destes esquecimentos e brancos têm causas variadas e necessitam de investigação e orientação. Algumas causas de distúrbios de memória são perfeitamente tratáveis e reversíveis. Vou enumerar aqui algumas causas delas:

  • Depressão, ansiedade e outros distúrbios mentais podem causar esquecimento, déficit de atenção e outras dificuldades que dificultam as atividades da vida diária. Além disso, também podem afetar o sono (vide adiante).
  • Distúrbios do sono: uma má higiene do sono, como permanecer voluntariamente acordado até tarde e ter que levantar cedo no dia seguinte tem impacto direto sobre a memória. Mesmo uma única noite com privação de sono afeta a concentração no dia seguinte. A insônia é outra causa comum. Lembro que insônia não é doença, é um sintoma, geralmente ligado a distúrbios depressivos e ansiosos. Pacientes cronicamente insones queixam-se muito de esquecimento, pois a redução de horas de sono afeta a consolidação da memória. A síndrome da apnéia do sono causa noites mal dormidas com pausas respiratórias e microdespertares frequentes, e assim os indivíduos afetados apresentam sonolência excessiva e prejuízo da atenção no dia seguinte, também com impacto sobre a memória. Outras causas menos comuns ligadas a distúrbios do sono também podem ocorrer.
  • Medicações: algumas medicações podem causar confusão, sonolência, confusão ou até mesmo distúrbio de memória, sobretudo medicações que atuam no sistema nervoso central, usadas em diversos contextos clínicos, como por exemplo, alguns anticonvulsivantes. As medicações mais relacionadas a distúrbios de memória são os tranquilizantes da classe dos benzodiazepínicos. Uma vez identificada e corrigida esta causa, há melhora do sintoma.                  
  • Alcoolismo: o álcool pode prejudicar as funções mentais. Ele age como um depressor do sistema nervoso, mas afeta mais algumas áreas que outras, sobretudo o hipocampo, área importante no circuito da memória. O álcool causa dano às células do hipocampo, com prejuízo na retenção de memória, sobretudo de memória recente. Os blackouts ou “apagamentos” resultam de intoxicação alcóolica. O álcool pode ainda afetar várias outros tipos de memória, como a memória explícita e a semântica. Seu uso continuado pode causar atrofia do hipocampo e afetar outras áreas cerebrais, inclusive corticais.
  • Deficiência de vitamina B12 é outra causa potencialmente tratável de distúrbio de memória. A vitamina B12 participa do metabolismo de neurônios e células sanguíneas. Uma simples dosagem sérica de B12 é um bom screening, e o tratamento se dá através de reposição.
  • Hipotiroidismo: uma tiróide hipoativa lentifica o metabolismo celular e pode causar esquecimento, humor deprimido e outros sintomas. O quadro também é corrigido através da reposição do hormônio.

Substâncias ilícitas também podem afetar a memória, como é o caso do MDMA (ecstasy). Mesmo o uso eventual, recreativo, da substância pode causar leves déficits de memória. Usuários crônicos estão expostos a danos mais severos.

Há outras causas de distúrbios de memória, como um “apagão” que se manifesta imediatamente após um trauma de crânio (mesmo um trauma banal), ou causas ligadas a problemas neurológicos específicos, que comumente se acompanharão de outros sintomas e queixas além do esquecimento.

Se você está preocupado(a) com seu esquecimento, o melhor a fazer é marcar uma consulta, onde estas causas serão rastreadas, e alguns testes simples podem ser realizados na consulta. Exames adicionais poderão ser solicitados de acordo com o caso, tanto de sangue como de imagem, ou mesmo uma avaliação neuropsicológica.

No caso de pacientes idosos com perda crescente de memória, é importante ficar atento e não tentar esconder o problema. Tanto o paciente como a família podem se valer desse mecanismo de defesa e na verdade, mesmo um quadro inicial de demência pode se beneficiar de um tratamento específico. Não é incomum ver situações onde o paciente já apresenta demência há alguns anos, e a família só procura quando a doença já está em uma fase moderada ou severa.

Virna Teixeira

 

Virna Teixeira é neurologista e especialista em distúrbios do sono e trabalha no Centro de Neuropsiquiatria.

Recomendações de higiene do sono para crianças e adolescentes

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(Foto: Sandy Skoglund)

  • Manter horários regulares para deitar e levantar, mesmo nos finais de semana.
  • Evitar tempo ocioso na cama. A cama deve ser usada para dormir. Evitar uso de computadores no quarto.
  • O quarto deve estar num temperatura agradável, com um ambiente calmo e silencioso.
  • Procurar estabelecer rituais antes de dormir, como escovar os dentes e ler uma história para a criança, ou tomar um copo de leite morno.
  • Reduzir e restringir horário de atividades estimulantes à noite como brincadeiras, uso de televisão, computadores e uso de telefones.
  • Evitar exercícios físicos à noite.
  • Bebidas contendo cafeína devem ser evitadas no final da tarde e à noite.
  • As crianças devem ser colocadas na cama quando estiverem sonolentas, mas ainda despertas, para evitar o hábito de adormecer em outros locais.
  • Uso de um brinquedo de estimação ou um objeto transicional ajuda crianças pequenas a adormecerem.
  • Se a criança ou o adolescente não conseguem dormir, é melhor sair da cama para alguma atividade leve. Após 20-30 min, tentar colocar na cama de novo.

Virna Teixeira

Workshop sobre memória e escrita no Centro de Neuropsiquiatria

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Memória, autobiografia e terapia narrativa

Com Victor Sosa e Virna Teixeira

“Eu sou o próprio objeto da minha escritura.” (Heráclito)

“Recordar é voltar a mentir.” (Eliseo Alberto)

O poeta e professor Victor Sosa coordena o Laboratório de Escrita Autobiográfica na Cidade do México, com ampla experiência nesta área nos últimos anos. De passagem pelo Brasil, irá ministrar no Centro de Neuropsiquiatria esta oficina de escrita e autobiografia terapêutica, articulando os mecanismos da recordação, esquecimento e repressão envolvidos na escrita. Virna Teixeira, neurologista e poeta, participa da oficina abordando os conceitos básicos e científicos na formação da memória, os diferentes tipos de memória, bem como tópicos relacionados a “autopatografia” (escrita biográfica relacionada à doença) e às humanidades médicas.

O objetivo do curso é familiarizar os participantes com as diversas possibilidades da escrita em primeira pessoa, e da reelaboração de suas vivências, com ênfase no seu aspecto transformador e terapêutico. Ou seja, reescrever a autobiografia com um outro olhar e com uma nova perspectiva futura, ao buscar romper com a repetição do próprio discurso.

Dias:
8 e 9 de março de 2014

Horários:
Sábado, de 10 às 13h; 14h às 18h.
Domingo, de 10h às 13h

Carga horária:10 horas

Local:
Centro de Neuropsiquiatria. Rua Itapeva, 366 Cj 102

Contato:
neuropsiquiatria@terra.com.br
ou pelo telefone 99232 3705 (c/ Virna Teixeira)

Investimento (à vista): R$ 450,00

Vagas limitadas a 8 participantes. Será fornecido certificado.

Sobre os organizadores:

victor-sosaVictor Sosa (Uruguai, 1956) é poeta, ensaísta, crítico de arte e literatura e tradutor de língua portuguesa. Naturalizado mexicano, vive na Cidade do México desde 1983. Dirige ZONaUNO, Seminario Permanente de Apreciación Poética e o Laboratório de Escrita Autobiografica, na Cidade do México. Publicou diversos livros de poesia e crítica, colaborou regularmente com a revista Vuelta nos anos 90, e exerceu sua atividade como crítico literário em vários jornais mexicanos. Participou da antologia Jardim de camaleoes, a poesía neobarroca na América Latina (2004). Recebeu vários prêmios literários, com dois destaques recentes: o premio Nacional de Poesia Gilberto Owen (2012), e o Premio Internacional de Poesia Jaime Sabines (2013). Sua obra completa, Oroboro poesia reunida (1992-2012) acaba de ser publicada no Brasil pela Lumme Editor.

virna teixeiraVirna Teixeira nasceu em Fortaleza em 1971. Vive em São Paulo. Fez residência de Neurologia pela USP, e mestrado em Medicina do Sono pela Edinburgh University, com uma bolsa Chevening (British Council). Especialista no tratamento de dependentes químicos pela UNIFESP. Trabalha como neurologista no Centro de Neuropsiquiatria. Além de médica, é poeta e tradutora. Publicou três livros de poemas: Visita (2000) e Distância (2005) pela 7 Letras, e Trânsitos (2009) pela Lumme Editor. Tem também três livros de tradução de poesia escocesa publicados. Organizou e participou de vários festivais de poesia em São Paulo e no exterior, com destaque para o festival Tordesilhas e o Simpoesia, Edita desde 2004 na web o blog Papel de rascunho (www.papelderascunho.net).

Enxaqueca

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As dores de cabeça (cefaléias) podem ser de natureza primária ou secundária a outras causas neurológicas. As dores de cabeça primárias constituem o tipo de cefaléia mais comum e devem-se a mecanismos neuroquímicos. Exemplos típicos e muito comuns de dores de cabeça primárias são enxaqueca e a cefaléia tensional. Nestes casos, os pacientes devem apresentar exame físico e neurológico normais, e não há necessidade de investigação se a história é típica.

A enxaqueca (ou migrânea) é um tipo comum de cefaléia primária. Caracteriza-se por uma dor de cabeça recorrente, de localização variada mas sobretudo em um dos lados da cabeça. A dor é do tipo pulsátil, de intensidade variável, acompanha-se por intolerância ao barulho e a luz e piora com o esforço físico. Pode vir acompanhada por náuseas e vômitos. Alguns pacientes apresentam brevemente sintomas que precedem a crise. Estes fenômenos são conhecidos como “aura”. O tipo de aura mais comum á a visual, que se manifesta por visão em zig-zag, pontos brilhantes ou manchas no campo visual. A duração é de alguns minutos, e em seguida, ocorre a crise de enxaqueca.

Cerca de 95% das pessoas terá alguma crise de cefaléia ao longo da vida, e a enxaqueca é comum na população geral, respondendo por um terço das consultas neurológicas. Segundo um estudo recente, a enxaqueca afeta 10,1 a 17,4% das mulheres na América Latina, e 2.9% a 7,8% dos homens.

Algumas substâncias, o comportamento e o meio ambiente podem deflagrar crises de enxaqueca. Cerca de metade dos pacientes se auto-medicam nas crises, e muitos fazem abuso de analgésicos, sobretudo aqueles com enxaquecas mais freqüentes, com controle insatisfatório da dor. Há uma tendência nestes casos a uma cronificação gradual, com aumento da intensidade e da freqüência e das crises, e muitas vezes idas regulares ao pronto-socorro, além de prejuízo da capacidade produtiva e da qualidade de vida.

Pacientes com enxaqueca crônica, pelos frequentes eventos neuroquímicos e vasculares, estão mais expostos ao risco de acidentes vasculares encefálicos e doenças cardiovasculares. Transtornos de humor e ansiedade, insônia e fibromialgia são condições comórbidas nestes pacientes. Obesidade, ronco, consumo excessivo de cafeína e eventos estressores maiores de vida sao também mais prevalentes.

O tratamento preventivo desta condição tem como objetivo diminuir a frequência e intensidade da enxaqueca, e melhorar a resposta ao tratamento agudo das crises. Há uma variedade de medicações para este fim, e o neurologista irá discutir com o paciente a escolha individual mais adequada. O tratamento exige também uma reflexão sobre o estilo de vida. Uma dieta inadequada, abuso de álcool, privação e horários irregulares de sono, estresse, tabagismo, excesso de bebidas cafeinadas, são fatores que pioram as crises de enxaqueca.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaléia, “ter dor de cabeça é comum mas não é normal”. Se as crises estão muito frequentes, e prejudicando duas atividades do dia a dia, é hora de procurar atendimento médico. Crises fora do padrão habitual, crises que iniciam após os cinquenta anos, e cefaléias acompanhadas por outros sintomas neurológicos requerem uma atenção ainda mais cuidadosa.

Virna Teixeira

Manter um diário das crises ajuda a conhecer melhor o que desencadeia sua enxaqueca. Há hoje inclusive aplicativos com este fim, como o iheadache. O laboratório Libbs disponibilizou um aplicativo que funicona como blog que pode ser baixado neste site.

Arte e doença mental

“I don’t want to cure my mental problems, rather I want to utilise them as a generating force for my art.”

A artista plástica Yayoi Kusama vive em um hospital psiquiátrico em Tokio desde 1977.

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Como dormir melhor?

Ovelha Acordada

O que fazer quando contar ovelhas não funciona

Quantas horas de sono você precisa para se sentir bem? Na hora de organizar sua agenda, lembre-se que dormir é uma prioridade. Respeite sua necessidade de sono e não acredite na ideia de que dá para compensar nos finais de semana.

Por falar em final de semana, uma dica valiosa para uma boa noite de sono é ter horários relativamente constantes para dormir e acordar – mesmo nos dias de descanso. Assim você mantém seu relógio biológico bem sincronizado.

Outra maneira de “dar corda” no relógio é se expor à luz do sol logo pela manhã.

Caso acorde antes do horário desejado e não consiga dormir novamente, levante da cama! Permanecer deitado muito tempo após o despertar não melhora a qualidade do sono – muito pelo contrário.

Se ao longo do dia você precisar de um cochilo, é melhor que seja breve e antes das 17:00.

Depois desse horário, você também deve evitar café, chá preto, chocolate ou qualquer bebida estimulante.

Atividade física intensa também pode atrapalhar o sono, e é melhor se exercitar até quatro horas antes do horário de dormir.

À noite, desacelere. Faça refeições mais leves e evite ingerir muito líquido.

Procure relaxar o corpo e a mente de sessenta a noventa minutos antes de ir para a cama. Tenha uma rotina pré-sono, um “ritual” que facilite a transição entre a vigília e o dormir: tomar um banho morno, escovar os dentes, por o pijama, diminuir a intensidade da luz, ler um livro…

Embora ajudem a relaxar, as bebidas alcoólicas perturbam a qualidade do sono e devem ser evitadas principalmente pelos que roncam. O álcool relaxa a musculatura respiratória e pode piorar roncos e pausas na respiração.

Também não se deve fumar antes de dormir. A nicotina favorece a insônia e um sono não reparador.

Quem tem insônia deve evitar a televisão, o tablet, o celular, o computador e os jogos eletrônicos antes de dormir. A luminosidade pode atrapalhar a liberação da melatonina, hormônio que induz o sono.

Transforme o seu quarto em um ambiente facilitador do sono. O quarto de dormir não foi feito para trabalhar, estudar ou comer – e sim para namorar e… dormir.

O seu quarto deve ter uma temperatura agradável, pois calor e frio excessivos prejudicam o sono.

Ruídos também podem atrapalhar. Caso não possa evitar algum barulho externo, vale a pena usar um protetor auricular ou um dispositivo de “ruído branco”.

Não abra mão do conforto. Escolha um colchão compatível com o seu tipo físico. Para pessoas magras e baixas, recomenda-se um colchão de consistência macia. Já pessoas com maior peso e altura devem optar por um colchão de maior densidade. Na hora de escolher o travesseiro, lembre-se que a coluna deve estar alinhada com o restante do corpo. Opte por um travesseiro com altura suficiente para preencher o espaço entre a cabeça e o colchão.

Deixe-se levar e esqueça o relógio. Para que saber que já é tarde e que você já deveria estar dormindo? Isso só vai te deixar mais ansioso e dificultar ainda mais o sono. Melhor virar os relógios ao contrário e confiar no despertador no dia seguinte.

Ah! E se por acaso você não conseguir dormir, nada de sofrer virando de um lado para o outro. A cama é um lugar de descanso, não de tortura. Levante, vá para outro cômodo e faça algo relaxante. Mais uma vez, esqueça o relógio, não ceda às tentações eletrônicas (TV, jogos, tablet, celular e computador) e só volte para a cama quando estiver com sono.

Geilson Santana

Ensaio sobre o coqueiro: o que os coqueiros têm a ensinar sobre viver bem

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Como em todo início de ano, está na hora de começar a preparar a lista de objetivos para os meses vindouros. Para aqueles que vão para as praias, principalmente para as praias do Nordeste, sugiro que atente por um minutinho para os coqueiros ao redor e pense um pouco na sua vida. Seria interessante incluir entre esses objetivos que você fosse um pouco mais parecido com um desses coqueiros. Neste ponto, você deve estar imaginando que eu surtei, pois não entendeu nada do que falei até o momento sobre ser como um coqueiro… Como assim, ser parecido com ele? E, supondo que fosse, o que o coqueiro tem a ver com viver bem, com o bem-estar do título? A resposta é: tem tudo a ver. Ele é uma metáfora muito bem acabada de como podemos viver bem a vida.

Vejamos… A psiquiatria foi uma das áreas da medicina que mais avançou nas últimas décadas, contudo, esse avanço não se traduziu em maiores níveis de bem-estar e felicidade para maior parte da população. Por causa disso, alguns pesquisadores passaram a se questionar não mais acerca do que tornava as pessoas tristes, melancólicas, infelizes ou deprimidas. Em vez disso, começaram a buscar em suas pesquisas quais fatores fazem com que uma pessoa tenha bem-estar, sinta-se bem, seja feliz. Um desses pesquisadores é Robert Cloninger, professor da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Ao estudar os aspectos que fazem com que alguns indivíduos sintam-se bem melhor que os demais, Cloninger percebeu que três princípios de vida contribuíam consistentemente para o bem-estar: 1) Contribuir com o coletivo (cooperativeness) e trabalhar não apenas para nosso próprio bem, mas também em serviço dos outros (desfrutar dessa cooperatividade, sendo respeitoso e gentil com os demais); 2) Exercer a capacidade de “deixar passar” (letting go) ou não se apegar ou preocupar-se com qualquer coisa (não lutar ou preocupar com tudo, ser empático e reflexivo nas situações) e, por fim, 3) Aumentar o nível de awareness ou autoconhecimento (ser feliz ao se adaptar e aprender constantemente, sendo autêntico e humilde).

Agora, de volta ao nosso prosaico coqueiro. Esse membro da família Aracaceae, que também contém as palmeiras, pode ser geralmente encontrado em regiões litorâneas no Nordeste do país. Apesar do terreno arenoso e dos ventos constantes e frequentemente fortes dessas regiões, dificilmente vemos coqueiros caídos após uma tempestade ou mesmo depois de uma ressaca. Eles são extremamente resistentes a intempéries. Por que isso ocorre? E, ao contrário disso, por que quando cai uma chuva em São Paulo é tão comum vermos outras árvores caídas, mesmo em terrenos mais firmes que as areias da praia? No que elas diferem do coqueiro? Para começar, o coqueiro tem uma base (raiz) que, embora não seja tão profunda ou vigorosa, é bastante ampla. São centenas e até milhares de radículas que formam uma enorme rede que se estende ao redor da planta por uma distância correspondente à sua altura. Essa trama continua crescendo por toda vida da árvore permitindo que, mesmo em condições adversas ele mantenha o equilíbrio. No nosso caso, aprendemos que ao estabelecer relacionamentos consistentes e mútuos com as pessoas ao nosso redor, nós também nos tornamos mais estáveis nos momentos difíceis de nossas vidas.

Outro ponto de convergência é o tronco do Cocos nucifera, nome científico do coqueiro-da-bahia. Este se destaca pois alia resistência e flexibilidade numa combinação de características que possibilita um homem escalar até o seu topo sem que ele se dobre com o peso do homem, mas também permite que, em caso de vendavais, o tronco balance e se dobre sem quebrar. Esse outro ensinamento adquirimos ao longo do tempo. Ao aumentarmos nosso conhecimento de si, também devemos aprender a perceber quais os valores que são verdadeiramente caros para nós e quais aqueles que podem ser flexibilizados. Devemos ser firmes nos valores mais importantes de nossa vida (família, honra, educação, honestidade entre outros) e passiveis de flexibilizar aqueles que não fazem tanta diferença em nossas vidas. Esse jogo de cintura ajuda a levar a vida de modo mais saudável.

Por fim, o coqueiro também nos ensina a “deixar passar” (letting go). Alguns de nós já fomos numa praia depois de uma tormenta de verão. Quando isso ocorre, a praia fica frequentemente repleta de cocos caídos e alguns coqueiros estão inclusive mais “pelados” devido às palhas e folhas que deixaram cair. Sim, tal qual no ditado popular “vão-se os anéis, ficam-se os dedos”, as vezes é melhor soltar alguns cocos pelo caminho e ficar de pé do que nos agarrar a eles com todas as forças e cairmos juntos. Outros cocos brotarão e outras folhas ocuparão o lugar daquelas arrancadas. A vida sempre se renova.

Temos que admirar ainda uma última característica (esta última, devo admitir, chega a me provoca algo como uma “inveja” saudável). Os coqueiros geralmente estão próximos à praia, olhando para o mar e ao sabor do vento. Aproveitar a vista é algo que devemos fazer sempre que possível.

Agora que falamos de nosso personagem e explicamos por que ele pode ser referência e inspiração para uma vida melhor, sugiro que, nas próximas viagens, você tome uma água de coco na sombra de um coqueiro. Quem sabe você não se anima para mudar alguma(s) coisa(s) em sua vida?

Bruno Mendonça

Controvérsias sobre o TDAH: Uma doença inventada?

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O TDAH, ou Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, é um transtorno cerebral de causa genética caracterizado por sintomas de desatenção, agitação e/ou impulsividade. Há, portanto, três subtipos do TDAH: o predominantemente desatento, o subtipo predominantemente hiperativo-impulsivo e o subtipo combinado. Apesar de ter sido descrita pela primeira vez no século XVIII, por Alexander Crichton, os sintomas essenciais ao diagnóstico descritos já naquela época são basicamente idênticos aos que usamos para diagnosticar o transtorno atualmente.

A prevalência do TDAH no nosso país é comparável com a prevalência mundial e está estimada em 5.29%. A causa precisa do TDAH ainda não está estabelecida. Entretanto isso longe de ser uma prova de inexistência dessa patologia, mostra o estágio atual do nosso conhecimento científico. Esta, inclusive, não é uma realidade diferente de do que ocorre com outras doenças sejam elas psiquiátricas (como Esquizofrenia, Autismo ou Transtorno Bipolar) ou não-psiquiátricas (tais como Vitiligo ou Doença de Parkinson) cuja causa específica ainda não está totalmente esclarecida. Ainda em relação a sua etiologia, vários estudos demonstraram os substratos neurobiológicos do TDAH e, mais ainda, sua condição etiológica complexa e multifacetada.

A validade desse diagnóstico independe do local geográfico ou mesmo de questões culturais locais. Isso é indicativo de que se fosse uma patologia “inventada” ou uma patologia secundária ao modo de educar as crianças, diferenças socioculturais deveriam apresentar diferentes variações nos sintomas. Contudo isso não ocorre. Outras evidências a favor da validade do diagnóstico são os estudos com famílias, estudos com gêmeos e estudos de adoção os quais demonstram a alta herdabilidade – entre 60 e 90% – dessa patologia. Neste sentido, parentes de primeiro grau (pais e filhos) de indivíduos com TDAH tem até oito vezes mais risco de apresentar o transtorno quando comparados a controles. Além do mais, parentes biológicos tem risco maior de TDAH que parentes adotados.

O diagnóstico de TDAH é importante não só no curto prazo. Além dos prejuízos que os pacientes apresentam pelos sintomas, ao longo prazo, os indivíduos não tratados adequadamente apresentam maior risco de transtornos por uso de substâncias, de apresentarem menor escolaridade, de terem maior abandono escolar, maiores taxas de desemprego ou subempregos, maiores dificuldades relacionais, maior risco de acidentes, maiores taxas de divórcios, e maior risco de apresentarem comportamentos antissociais e de delinquência.

Em relação ao tratamento, é importante que ele seja conduzido por profissional médico especialista. Há algumas modalidades de tratamento desse transtorno, entretanto a medida mais eficaz é o uso de psicoestimulantes. No Brasil, estão as únicas drogas de primeira linha disponíveis são o Metilfenidato nas suas diferentes formulações e a Lis-dexanfetamina. O uso de psicoterapias comportamentais, principalmente quando combinada a psicofarmacologia, é também recomendada principalmente devido a grande presença de comorbidades. Contudo, ela não substitui a medicação e o tratamento combinado é o ideal.

Finalizando, o TDAH é uma importante condição médica que deve ser levada a sério, tratada de maneira adequada e o mais precocemente possível. A população necessita ser melhor informada sobre suas características e, em caso de dúvidas, um psiquiatra deve ser consultado.

Bruno Mendonça Coêlho

Sonolência excessiva – pode ser narcolepsia

 

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Pacientes com narcolepsia foram descritos desde o século XVIII, mas foi o neuropsiquiatra francês Edouard Gélinau quem primeiro caracterizou e denominou a doença. Gélinau publicou um artigo em 1880 na Gazette des Hôpitaux de Paris no qual mencionou uma síndrome caracterizada por uma urgência súbita e incontrolável para dormir. Ele relatou os casos de dois pacientes. Um deles era um comerciante de vinhos de 38 anos com uma história de ataques repetidos de sono que tinham iniciado dois anos antes, após um relacionamento amoroso infeliz. Entre estes ataques, ele também relatou episódios no qual perdia o controle das suas pernas, principalmente após uma gargalhada, após qualquer emoção agradável ou quando segurava nas mãos um bom trunfo de cartas. No ano seguinte, Gelineau publicou uma monografia com 14 casos de narcolepsia. Ele acreditou inicialmente que tratava-se de um tipo novo de neurose.

Foi somente no início do século XX que a narcolepsia despertou interesse e debate entre os neurologistas, se era uma doença autonôma ou sintomática, após um surto de encefalite letárgica na década de 20. Em 1957, Yoss e Daily descreveram a tétrade completa de sintomas:

  • Sonolência excessiva diurna: ataques de sono incontroláveis, em qualquer lugar ou situação, mesmo em situações bizarras.
  • Cataplexia: é a perda de tônus muscular causada por emoções, geralmente deflagrada pelo riso. O mais comum é a perda de tônus na cabeça, pescoço e nos braços.  A cataplexia pode acometer os membros inferiores e por este motivo causar queda ao solo, geralmente sem perda de consciência.
  • Paralisia do sono: manifesta-se pela consciência de estar desperto junto com a inabilidade para mover-se por alguns minutos. Geralmente ocorre ao despertar (como sintoma isolado é comum em situações de privação de sono).
  • Alucinações hipnagógicas: são alucinações que ocorrem na transição sono/vigília, sobretudo visuais e auditivas, que parecem alucinações oníricas. As alucinações visuais mais comuns se apresentam como percepção de formas estranhas, ora esféricas, ora em outros formatos geométricos. Podem ser tanto monocromáticas como intensamente coloridas.

Estes sintomas representam intrusões do sono REM (ou sono associado aos sonhos) na vigília. Ao disso, por conta desta dersorganização sono/ vigília que se observa na doença, o sono noturno dos narcolépticos é fragmentado e de má qualidade, o que pode caracterizar um quinto sintoma ou “pentade” da narcolepsia.

Após a descoberta do sono REM por Kleitman e Aserisnky na década de 50, a narcolepsia finalmente pôde ser estudada através da polissonografia. O desenvolvimento de outros testes diagnósticos, e a descoberta de danos aos neurônios secretores de hipocretina na região do hipotálamo têm trazido nova compreensão dos mecanismos envolvidos na narcolepsia. A hipocretina é um neuropeptídeo que regula o sono-vigília e seus níveis são baixos em pacientes com a doença.

A narcolepsia costuma iniciar por volta da segunda década de vida, embora possa começar na infância ou um pouco mais tarde, e afeta 1 em cada 2000 pessoas no Reino Unido (a prevalência é desconhecida no Brasil). A estatística é similar nos estados Unidos. O retardo frequente por anos do diagnóstico e a sonolência excessiva acentuada, mesmo com tratamento, causam um grande prejuízo na qualidade de vida para os pacientes em diversos aspectos: desde o risco aumentado de acidentes até dificuldades na vida pessoal e atividades profissionais e alta prevalência de sintomas depressivos.

O diagnóstico é clínico, e requer o suporte através de polissonografia, para descartar outras causas de sonolência diurna. Um teste adicional, chamado de “teste de latências múltiplas do sono”, é realizado no dia seguinte após a polissonografia, para flagrar episódios de sonolência intensa associados a períodos precoces de sono REM no traçado eletroencefalográfico.

O tratamento da narcolepsia, uma vez definido o diagnóstico, requer o uso de estimulantes (modafinil e anfetaminas) para combater a sonolência diurna e de antidepressivos, estes últimos para tratar sintomas de cataplexia, paralisia do sono e alucinações. Medidas comportamentais e de apoio aos pacientes são essenciais.

Virna Teixeira

Para saber mais: